Aluno de Relações Internacionais do UNICURITIBA participa de Missão de Paz da ONU no Sudão

  • Profissões

Guilherme Skrepka Ovçar fez parte de patrulhas e observações em milícias, presenciou situações de trabalho infantil e diz que maior ganho foi evolução enquanto ser humano

Depois de viver dois anos no Sudão, morando em uma área de conflito, abrigado em containers, com água potável e energia elétrica restritas, Guilherme Skrepka Ovçar, de 29 anos, aluno do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA) retornou ao Brasil em janeiro.

O brasileiro integrou a Missão Híbrida das Nações Unidas e da União Africana em Darfur, que tinha como objetivo conseguir um acordo de paz oficial para finalizar o conflito entre tribos e religiões que ocorre no Sudão desde 1956. 

Ovçar é oficial da Polícia Militar no Paraná e para ser aceito na delegação passou por um rígido processo seletivo conduzido pelo Exército Brasileiro, que inclui testes práticos, psicológicos e fluência em inglês.

Ele está prestes a concluir a graduação em Relações Internacionais, falta apenas o trabalho de conclusão de curso cuja entrega teve de ser adiada para que ele pudesse participar da missão. Ovçar garante, entretanto, que o background que o curso lhe conferiu foi muito importante para a experiência.

“Outros colegas brincavam que eu era uma enciclopédia, porque eu entendia a representação dos países na missão. Isso ajudou a ganhar a simpatia das pessoas. Eu convivia com gente de muitas nacionalidades diferentes e entendia como tratá-las. Foi um estágio de Relações Internacionais para quem quer trabalhar como internacionalista, com a política internacional correndo ali na frente”.

Trajetória na missão 

Assim que chegou no Sudão, o brasileiro encarou um período inicial de adaptação, assim como ocorre com todos os profissionais que chegam às missões, para dominar os protocolos técnicos e a cultura do país no qual passaria os próximos dois anos. Este é o limite máximo de tempo recomendado para que o profissional passe em missão. 

“Depois dessa adaptação, você é classificado nas bases operacionais e fica confinado, já que se trata de uma área de conflito. Passei meses ali na fronteira com Chade, morando em containers, atuando na patrulha e observação”, explica Ovçar. 

Nessas patrulhas, os soldados visitavam milícias para monitorar se o cessar- fogo estava ocorrendo, observavam as condições dos hospitais, situações de trabalho infantil e acompanhavam a distribuição de alimentos ou remédios. “Íamos escoltados pela tropa militar da ONU em viaturas blindadas, mas para chegar às regiões sempre tínhamos de fazer contato com os líderes tribais antes.” 

“A cidade que eu estava era no meio do Deserto de Saara, sem água potável e energia elétrica, era um ambiente de seca puro. As patrulhas duravam entre seis e oito horas. No retorno, tínhamos de produzir relatórios para o QG sobre o cenário para que novas medidas fossem traçadas”, lembra.

Depois, o policial passou a ocupar um novo cargo, de função mais tática e menos operacional, na seleção de profissionais para as vagas internas da Missão. “Aí a rotina mudou um pouco, passei a ter uma estrutura melhor de escritório para trabalhar, porque era uma função mais administrativa. Ajudava a distribuir os profissionais nas vagas que apareciam, de acordo com sua expertise.” 

Motivação vem desde adolescência

Desde adolescente, Ovçar se interessa por geopolítica, mas aos 17 anos resolveu seguir carreira na polícia e virou cadete. Ele conta que, apesar disso, nunca parou de estudar sua área de interesse, tanto que quando se formou na Academia de Polícia e partiu para a graduação em Relações Internacionais no UNICURITIBA.

O desejo de participar de uma missão internacional era sonho de adolescência. Em 2017, viu uma oportunidade com a abertura de um processo seletivo. As vagas para as missões de paz são disponibilizadas para o Brasil pela ONU, por meio do Ministério de Relações Exteriores. O Exército Brasileiro, por sua vez, fica responsável pela seleção dos candidatos. Depois de aceitos no Brasil, os profissionais ainda são avaliados pelo escritório da ONU, que se certifica de que os candidatos têm as condições mínimas para o embarque. 

“São poucos policiais que vão, porque nem todos estão dispostos a passar um ou dois anos fora e largar tudo o que possuem no Brasil. Também porque o processo seletivo é rigoroso, e às vezes elimina até quem tem vontade de ir, mas não tem aptidão técnica.”

Ovçar conta que, na época, tinha como opções de destino o Haiti e a República Democrática do Congo, além do Sudão. 

“As missões de paz têm como intenção reestruturar uma situação de guerra ou conflito no país em que o conselho de segurança entendeu que é necessária uma intervenção. O governo de Omar Bashir [ex-presidente do Sudão] começou com uma política de genocídio contra a população negra, gerou onda de imigração e episódios de barbárie gigantesca.”

Desafios e legado 

Passar dois anos no Sudão morando em condições precárias e no meio de uma área de conflito não é uma experiência que passa despercebida na vida de alguém. Ovçar narra “gafes” por conta das diferenças culturais, a começar quando chegou ao país de bermuda e teve problemas na imigração; a dificuldade para se alimentar, a culinária é baseada em um arroz apimentado; o fato de ter contraído malária e a restrição de acesso à internet e redes sociais como estratégia governamental. 

Apesar de todas as dificuldades, o legado é gigante do ponto de vista humanitário. “Uma experiência como essa, para quem vai com os olhos abertos para observar, permite uma evolução pessoal enorme. Há tanta riqueza no mundo, e ao mesmo tempo tanta gente vivendo na extrema miséria. Crianças de 4, 5 anos que trabalham em condições precárias para poder comer arroz no fim do dia” conta ele, emocionado. 

No Sudão, Omar al-Bashir foi deposto em abril do ano passado e condenado por corrupção em dezembro do mesmo ano. Segundo a ONU, cerca de 300 mil pessoas morreram e 2,5 milhões foram forçadas a fugir de seus lares desde a década passada em Dafur. Todavia, as negociações para o acordo de paz ainda seguem.