Projetos do UniCuritiba com indígenas prevê quebra de estigma e mais visibilidade à comunidade

  • Vída Acadêmica

Alunos fizeram mutirão em aldeia em 2019, e desde então mantêm vínculo com os caciques; ‘temos de reforçar nossos laços’, diz professor

“Precisamos quebrar o estigma de que o indígena tem na sociedade. Reforçar aquela imagem de tanga, com chocalho, em volta da fogueira, como seres primitivos é desconsiderá-lo enquanto ser humano. A gente só fala da escravização dos negros, mas não falamos dos indígenas. É uma população que está aí, mas é invisibilizada e sofre muito preconceito.”

A frase é do professor Thiago Bagatin, que leciona para o curso de Psicologia do Centro Universitário Curitiba (UniCuritiba) e desde 2019 coordena projetos de pesquisa e extensão da universidade junto a comunidades indígenas em Curitiba e no litoral do Paraná.

Em 2019, alunos de diferentes cursos na área da Saúde do UniCuritiba participaram de um mutirão de ações na aldeia Kuaray Haxa, em Guaraqueçaba. A proposta surgiu a partir da disciplina “Sociedade, Meio Ambiente e Cidadania” que abordava a comunidade indígena e os estudantes propuseram ter contato próximo com esse público.

Bagatin lembra que ao ouvir as demandas dos caciques, a ação cresceu e se transformou em um grande mutirão de serviços realizados pelos universitários dentro da aldeia. Entre as atividades realizadas estavam a medição dos índices de glicose dos indígenas conduzida pelos alunos de Biomedicina; oficina de construção de brinquedos com materiais recicláveis; atividades de educação ambiental; confecção de tonéis a base de pneus para descarte do lixo; criação de composteira; apoio na instalação da bomba de água, entre outros.

“Também houve a oficina de troca de saberes culinários, as mulheres indígenas fizeram comidas típicas e os alunos da Nutrição também cozinharam pratos. Levamos alimentos, gás e materiais para as oficinas até a aldeia. Ao final, participamos de um ritual de agradecimento feito por eles”, conta o professor.

Bagatin reforça que os indígenas dessa aldeia são da etnia guarani e têm como característica serem nômades extrativistas. “Por isso, eles se deslocam até um espaço físico para extrair a alimentação do meio ambiente. Quando acaba a alimentação, se mudam para outro lugar, por isso são considerados os grandes semeadores das florestas brasileiras.”

Por outro lado, segundo o professor, ao serem afetados pela “cultura dos brancos, havia o problema de ter muito lixo jogado atrás das casas, já que a coleta de lixo no local é feita de forma incipiente.” “Por isso, pensamos em desenvolver um projeto socioambiental na aldeia, eles também entendiam essa necessidade, aliás, todas as ações foram articuladas com eles.”

Mais aldeias atendidas

O projeto de extensão batizado de Tekoa Rape, significa “caminho da aldeia”, foi oficialmente lançado no ano passado, antes do início da pandemia, com a presença das caciques das aldeias Kuaray Haxa (Guaraqueçaba), Kakané Porã (Tatuquara) e Tekoa Takuaty (Ilha da Cotinga). O programa também foi expandido para outras aldeias localizadas no Paraná.

Entretanto, com o avanço do coronavírus, as ações presenciais tiveram de ser suspensas, tendo em vista que os indígenas são uma população vulnerável ao vírus.

Para não perder o vínculo com a comunidade e dar continuidade ao projeto, no ano passado foram desenvolvidas atividades a distância, como palestras, estudos, diagnóstico sobre consumo e segurança alimentar da comunidade indígena, a criação de uma cartilha que ensina como construir uma composteira doméstica, além do planejamento de uma oficina do idioma guarani, entre outras atividades.

Além disso, os alunos do UniCuritiba decidiram realizar uma rifa on-line com artesanatos indígenas com objetivo de divulgar o trabalho, e arrecadar recursos para auxiliar a aldeia Kuaray Haxa, em Guaraqueçaba, para a compra de alimentos.

No futuro, a universidade planeja para as três aldeias (Tekoa Takuaty, Kuaray Haxa e Kakané Porã) a construção de hortas comunitárias, escolas, realização de oficinas de geração de renda, de línguas, entre outras atividades.

“Precisamos fortalecer os laços com essas comunidades, eles têm muito a nos ensinar. São comunidades coletivistas, têm outra lógica de funcionamento, são espiritualistas, sua medicina é baseada em relação uma amistosa com a natureza. Temos muito a aprender com essa cultura, para isso precisamos valorizá-los e reforçar nossos laços com eles.”